Contos de Segunda – Diário de Bordo

Contos de Segunda

Mais um continho antigo no ar hoje, “Diário de Bordo”:

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“Diário de bordo. Data estelar 35B200-12. General Bohramed, a bordo do Cruzador Sparagonzalotti a serviço do Império.

No alvorecer de um dos hemisférios, a frota estacionou na órbita do planeta P’Semes, rico em recursos vegetais e minério gandhita.

Enviei somente um destacamento de 50 soldados para fazer um breve reconhecimento e tentar contato com os nativos. Após algumas horas de sondagens, o capitão destacado, Kindhared, reportou o contato com os pequenos Rostali, uma raça humanóide de pequeno porte que vive em tribos e usam lanças e tacapes como armas. Kindhared tentou um acordo pacífico para a exploração do planeta, mas não obteve êxito, e os soldados do Império foram emboscados por um grande número de nativos, o que demandou o total extermínio dos Rostali, que não são páreos para o poder de nossos rifles de fótons. No decorrer do dia, destaquei 25 cruzadores para localizar e destruir todas as tribos dos nativos num raio de 500 quilômetros para garantir o assentamento e extração dos recursos naturais de P’Semes. Só Gorjali – bate no peito – sabe da necessidade de matéria-prima para a atual expansão do Império.

Diário de bordo. Data estelar 35B200-17.

Após dois ciclos de buscas, encontramos o oculto planeta rosado que é conhecido apenas como O Pequeno de Sigma VX. A paisagem desértica deste pequeno mundo é uma das coisas mais lindas que já vislumbrei nesses vintes anos trabalhando pro Império. O destacamento do Capitão Bo Kazhared não encontrou resistência “inteligente”, mas nos deixou plenamente satisfeitos pela abundância das criaturas Zuri’g, conhecidos pela excelente carne. Alguns exemplares foram abatidos e preparados pelo cozinheiro-mestre do Cruzador Spirallelya. Alguns centiciclos depois fui alertado da morte de dezenas de soldados, vítimas de alguma criatura desconhecida. Enviei mais dois destacamentos, liderados por Jomhaled e Tortony, para dar cobertura a Kazhared, e fui informado que os seres que estavam atacando nossas tropas eram os Villee, vegetais rápidos e mortais. Eu já havia ouvido falar deles, mas nunca soube em que planeta eles viviam. A situação foi controlada em meio ciclo graças ao uso de cospe-labaredas e granadas de fogo-gel. Só então parti com o resto da frota para o próximo quadrante.

Diário de bordo. Data estelar 35B200-19.

Fui informado pelo Capitão Johmaled que no Pequeno de Sigma XV foi encontrado também os minérios gorthomita, safirita e gandhita.

Diário de bordo. Data estelar 35B200-27.

Acidentalmente encontramos um planeta gigante (classe 7), orbitando a binária de Gosvol, que nossos computadores identificaram como sendo “Tanikk” que, até onde sei, são duas palavras aglutinadas do antigo dialeto zzinol. Tanikk é coberto por vastos oceanos e, pelo pouco que as sondas detectam, coberto por uma densa vegetação. Aposto minha cabeça no tabuleiro de Gorjali – bate no peito – que há muitos tesouros aqui.

Subitamente, perdemos o contato com os cruzadores Ronalis, Zerinoski e Rampstalla, e o Capitão Tranvakhed, a bordo de Jomakstar, que os tinha em seu campo visual, reportou que as belonaves estavam sem energia e iniciavam um mergulho para a morte ao adentrar na atmosfera de Tanikk. Recomendei ao capitão que se afastasse dali, mas logo perdi contato com a Jomakstar, seguidos por Torndeli e Zurigsi também. De toda tropa, só restaram Zumaronov e a minha Sparagonzalotti. Exigi respostas dos cientistas e engenheiros que estavam na ponte de comando e fui informado que nossas belonaves foram pegas numa espécie de pulso eletromagnético. Foi então que me lembrei que a bordo de cada cruzador é transportado um espaçoplanador, livre de máquinas e que se move nas ondas solares. Recomendei à tripulação das duas belonaves restantes para que os espaçoplanadores fossem carregados com vinte soldados (que é a lotação da nave), e eu fui pessoalmente para o espaçoplanador da Sparagonzalotti. Adentramos a órbita do planeta e iniciamos um suave mergulho, quando ouvimos um som que parecia uma canção, que encheu o ar de uma luz esfumacenta azulada, que destruiu nossos rifles. Era esse o pulso que acertou os cruzadores que perdemos…

Quando avistamos a superfície iluminada pela binária, presenciamos algo impressionante: criaturas marinhas, gigantes e semelhantes aos volkoni (mamíferos marinhos semelhantes a um peixe), que cantavam aquela “canção” e saltaram do mar, voando em direção ao espaçoplanador que veio da Zumaronov, e o acertou com um golpe rápido da cauda, e depois os tripulantes que caíram da nave destruída foram devorados pelos monstros. Eram vinte ou mais que voavam em nosso campo de visão. O piloto em nosso espaçoplanador manobrou para estibordo e avistamos uma ilha de médio porte, mas quanto mais chegávamos perto da terra firme, mais daqueles seres “volkonianos” surgiam das águas. O piloto foi bravo, mas não pôde evitar que nossa nave fosse atacada e destruída. Enquanto eu caía, me lembrei do significado das palavras  que formavam o nome desse planeta: “Tun” significa “inevitável”, e “ikk”, morte. E eu acabei encontrando a minha nas presas daqueles seres…”

– Fim do registro –

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Contos de Segunda – Trem sem ele

Contos de Segunda

Conto inédito hoje:  “Trem sem ele”:

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Camila é uma linda garota de 18 anos, tem a pele morena e os olhos castanhos, cabelos lisos e compridos, e é uma simpatia de pessoa. Ela mora naquele tipo de cidade do interior do Brasil onde as pessoas passam o domingo sentadas na praça, e onde o maior avanço tecnológico que chegou por lá foi uma linha ferroviária.

Ela começou neste ano a cursar Enfermagem na faculdade de uma cidade vizinha, e ganha uma graninha extra vendendo bordados pela internet, que ela faz nas horas vagas. Camila tem um namorado chamado Tiago. Ele tem 23 anos e mora em outra cidade, há 3 horas de trem dali. Eles se vêem todos os fins de semana, e isso já há 8 meses desde que começaram o namoro. Se conheceram num aplicativo de relacionamentos.
Então chegou sábado. Tiago sempre pegava o trem das 5h20 na sua cidade e chegava por volta das 8h na estação da cidade de Camila, e lá sempre estava ela o esperando. Hoje, Camila estava ansiosa e chegou uma hora antes do trem que traz Tiago, pois ele havia dito a ela, no dia anterior, que tinha algo para contar a ela, e não quis fazer isso pela internet. Como Camila não gosta de ser chata, segurou a curiosidade e não insistiu ao Tiago para que falasse logo o que era.

O trem chegou à estação às 8h03. Camila, ansiosa, ficou acompanhando com o olhar todas as pessoas que saíam do veículo. Neste dia, foram poucas, e Tiago não apareceu. O trem fechou suas portas e partiu, e Camila, preocupada, olhou em seu smartphone, e no Whatsapp, viu que a última vez que Tiago havia estado online foi às 23h39 do dia anterior, um pouco depois que eles conversaram pela última vez. Ela então resolve ligar para o celular dele, mas a chamada caía direto na caixa postal em todas as vezes. Camila ficou na estação até a chegada do próximo trem, às 9h30. Não desceu ninguém deste.

Foi pra casa, ligou o computador e entrou em todas as redes sociais que Tiago usava, mas ele estava offline de todas elas. Tentou ligar para ele mais algumas vezes, já com um aperto no coração e os olhos mareados de tanta preocupação, mas não obteve sucesso. Foi então que ela percebeu que Ana, a irmã de Tiago, estava online, via celular, no chat do Facebook, e resolveu chamá-la:

– Oi, Ana. Sabe me dizer se o Tiago pegou o trem para vir me ver? – teclou ela.

E esperou longos cinco minutos até que Ana digitasse e enviasse a resposta:

– Oi, Camila. Então, eu tive que viajar ontem. Estou em São Paulo. Mas acredito que ele não tenha ido porque minha família toda ia se mudar hoje bem cedinho.

– Se mudar? Para onde? – escreveu Camila.

Dois longos minutos depois e vem a resposta de Ana:

– Para Minas Gerais. Pensei que o Tiago já tivesse contado a você.

Camila sentiu o chão ruir sob seus pés. Como o seu namorado não iria contar uma coisa dessas a ela? Se ele iria mudar-se para outro Estado no dia que a encontraria, porque então ele não contou antes e ainda assim disse que viria? Isso não fazia o menor sentido na cabeça da garota.

Ela tentou ligar mais uma vez para Tiago, mas o celular dele continua na caixa postal. Então ela desabou na cama e começou a chorar. E assim ela ficou por uns dez minutos, até que ouviu batidas na porta de madeira de seu quarto. É sua mãe, que diz:

– Camila, minha filha, o Tiago está aqui.

Ela pula da cama e corre até à porta, abrindo-a. E ali está Tiago, com um sorriso sem graça no rosto. Ela o abraça forte e ele retribiu.

– Onde você estava? Porque fez uma brincadeira dessas comigo? – pergunta ela, parte indignada e parte aliviada.

– Que brincadeira? Eu precisei resolver um problema hoje e acabei pegando o trem mais tarde. – ele respondeu.

– Poderia ter ligado e me avisado, não é?

– Fui assaltado e levaram meu celular. – ele fala.

Assustada, Camila pergunta:

– Nossa! E não te fizeram nada? Está tudo bem com você?

– Tudo sim. Só queriam o celular mesmo. E não liguei pra você porque não decorei seu número. Simplesmente o salvei na agenda do meu telefone.

– Eu entendo. – ela disse. E se sentaram na cama dela.

Camila segura uma das mãos de Tiago e olha fixamente em seus olhos, e pergunta:

– É verdade que sua família se mudou para Minas hoje?

– É sim. Acabou acontecendo tanta coisa na minha vida que acabei esquecendo de te avisar.

– Que coisa? – ela pergunta.

– Então, é isso que preciso te falar. Conheci uma menina, a Bruna, no ano passado, e ficamos numa festa.

A expressão de Camila nessa hora já muda.

– Bebi demais, mal me lembro dessa festa. Ficamos só naquela vez. Depois te conheci e nunca voltei a falar com ela. Daí na sexta, ela me chamou e fui conversar com ela. Ela disse que tinha algo muito importante pra me falar. A encontrei no shopping e ela estava com um bebê no colo. Ela disse que é meu filho.

Camila fica chocada, de olhos e boca abertos, e solta um – O quê!?

– Pois é. Eu não acreditei na hora, disse que era besteira dela e fui embora, mas ontem o pai dela me procurou, e disse que se eu não me casar com ela, vai me processar, fora que me ameçou de agressão.

Camila em estado de choque.

– Fui lá na casa dos pais dela. Eles já decidiram tudo. Compraram uma casa para nós três na minha cidade. Vou ter que fazer isso, Camila. Desculpa.

Camila a essa altura já chorava.

– Mas você disse que me amava… – falou ela soluçando.

– É, eu sei, eu te amo, mas… Não posso deixar essa menina e esse bebê desamparados…

Camila se levantou e olhou para a janela, chorando muito.

– Espero que você me entenda. – ele conclui, se aproximando dela.

– Não vai me dar um beijo de despedida?

– NÃO.  – Ela grita. E termina: – Vai embora da minha casa! E não fala nada pra minha mãe.

Ele suspira, e baixa a cabeça por alguns segundos, como se estivesse sendo condenado injustamente por um crime que não cometeu, se vira e vai embora. Camila se debruça na janela e chora muito.

Pode-se dizer que essa história não teve um final feliz para Camila, mas outra personagem está realizando um sonho de uma vida. É a Bruna, que vai morar junto de um homem bonito e com ele consitituir uma família. Não é sempre que podemos ter um final feliz nas nossas vidas, mas, às vezes, quando uma coisa ruim acontece conosco é porque uma coisa boa acontece com outras pessoas. Às vezes a felicidade é assim mesmo.

Contos de Segunda – O Peculiar Reino de Ganimédia*

Contos de Segunda

Mais uma reprise hoje. Vamos de “O Peculiar Reino de Ganimédia”, um dos meus contos homoeróticos favoritos:

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Um jovem de cabelos ruivos estava deitado com a cabeça sobre o peito de um homem mais velho, de cabelos e barba negros, e ambos estavam nus e suados, cobertos por um lençol em uma suntuosa cama. Tinham acabado de fazer amor. O mais velho se chamava Gorgel, e o jovem, Juliano. Gorgel nada mais era do que rei da Ganimédia, o mais próspero e poderoso reino do Ocidente. E Juliano era o seu atual conselheiro real.
– Você se lembra como nos conhecemos? – perguntou Juliano ao seu rei e amante.
– E como eu poderia esquecer, amor? – respondeu, voltando sua mente ao passado.

Dois anos atrás, no castelo do Rei Marlon, da Lavínia, o Rei Gorgel fazia sua primeira missão diplomática naquelas paragens, devido ao atual crescimento de influência que o reino lavínio tinha entre os pequenos reinados do Ocidente.
Gorgel também estava lá para tratar com o Rei Marlon uma aliança para o iminente avanço das tropas invasoras orientais. Após debater os assuntos burocráticos com o rei lavínio, Gorgel foi levado pelo mesmo ao Salão Comunal e viu o Príncipe Juliano pela primeira vez.

– Tão belo, jovem, gracioso, com seus trajes despojados, cabelos vermelhos caindo sobre a testa, exalando carisma… – descreveu o apaixonado Gorgel.
Juliano riu e replicou:
– Eu notei na hora que você não tirava os olhos de mim. Foi então que eu comecei a reparar em você e perceber que como aquele homem forte e distinto poderia ser mais interessante que qualquer rapariga que eu já havia corrido atrás no Reino de Lavínia.

Em menos de uma semana depois da visita de Gorgel, Juliano recebeu uma carta dele, onde ele descrevia o que sentia e suas reais intenções, deixando o príncipe atônito e ao mesmo tempo feliz. Marlon também recebeu uma missiva do regente da Ganimédia, solicitando a presença de Juliano em seu castelo para tê-lo como seu conselheiro real, estreitando assim os laços entre as duas nações.
Gabus, o atual conselheiro de Gorgel, foi deposto e rebaixado a duque, ganhando uma boa porção de terras como compensação, e participava de algumas reuniões dos fidalgos quando o rei precisava de opiniões diversificadas, como uma assembléia.

– E do dia em que você me nomeou arquiduque? Lembra de como Gabus ficou puto da vida? – perguntou sorrindo um nostálgico Juliano.
Gorgel gargalhou e revisitou suas memórias.

Há um pouco mais de um ano, Gorgel, cansado de esconder o que estava vivendo com Juliano, reuniu os fidalgos para anunciar que o seu jovem conselheiro era agora o Arquiduque de Senária (em homenagem ao Passo de Senária, local onde ficava a fazenda do rei e onde eles desfrutavam de seus momentos secretos), e deixou subentendido que os dois mantinham um matrimônio.
Gabus levantou-se da mesa, ofendidíssimo, e vociferou:
– Mas isso é um ultraje! Como pode o rei da Ganimédia destituir-me do posto de conselheiro real para em seu lugar colocar esse jovenzinho que mal entende da vida, e ainda por cima deitar-se com ele todas as noites como seu ele fosse sua esposa! Estamos condenados a ser amaldiçoados pelos deuses a viver sob a égide de dois reis e nenhuma rainha?
Todos os fidalgos ficaram horrorizados tanto com essas informações quanto com a ousadia de Gabus levantar-se contra o soberano. E os soldados, leais ao rei, aproximaram-se do velho exaltado, de lanças em riste. Gabus não se intimidou, e prosseguiu:
– E pelo que vejo vossa excelência real não deixará herdeiros para o trono, deixando o nosso reino à mercê de conquistadores! Eu me recuso a viver neste castelo e cuspo sobre tudo aquilo que vier do trono da Ganimédia! – concluiu o velho, cuspindo sobre a mesa.
Gorgel manteve a compostura, mas não podia esconder uma veia saliente em sua fronte, e respondeu:
– Gabus, vou lhe dar duas opções para tamanha traição e ousadia: ser decapitado ou encarcerado.

– Você teria decapitado o velho se não fosse a minha intervenção, não é mesmo, querido? – indagou Juliano.
– Era o que ele merecia por me desprezar e me humilhar diante dos outros súditos. – Gorgel usou um tom mais grave para responder.
– Jamais deixaria meu amor e senhor matar um homem por ele ser ignorante e preconceituoso, mesmo eu tendo sido ofendido no processo. – disse Juliano.
– Já matei por muito menos, amor. E na guerra ceifei muitas vidas para defender meu trono. – respondeu o rei.
– Nesse caso é diferente. E lembre-se de que foi com a minha chegada que você mudou sua política de vida, tornou-se mais justo, e até ensinou aos seus soldados que se todos os irmãos de armas ganimedianos se amassem como nos amamos, teríamos o exército mais imbatível que já caminhou sobre a Terra. – concluiu Juliano, deixando seu senhor e amante cheio de orgulho.
Depois de alguns segundos de silêncio, enquanto recebia um cafuné de Gorgel, o jovem arquiduque perguntou:
– O quê o futuro reserva para um peculiar casal de soberanos como nós, meu rei?
– Do futuro eu nada sei, amor. Só posso garantir a você um presente feliz e com muito amor. – respondeu Gorgel, beijando seu jovem amante e iniciando um novo ritual de prazer carnal.

Dez anos depois, o rei foi acordado de madrugada por um de seus mensageiros e alertado de que o exército inimigo estava a dois dias de distância, e pediu para que o alarme fosse soado e seus homens se vestissem para a batalha. O embate entre os exércitos ocorreu às margens do Rio das Névoas, e o rei, contrariado, foi acompanhado do Arquiduque de Senária ao campo de batalha.
– Jamais deixaria meu rei e amor ir sozinho à guerra. – argumentou Juliano.
A batalha foi sangrenta e durou três dias, tornado as águas do rio vermelhas com o sangue dos caídos. Ganimédia saiu vitoriosa, acossando seus invasores, e não houve festejos pela vitória, pois o Rei Gorgel e seu amado arquiduque tombaram na carnificina. Alguns soldados sobreviventes relataram que encontraram os corpos dos dois de mãos dadas. O trono da Ganimédia passou para Arman, primo e único parente vivo de Gorgel, que era fidalgo de um reino vizinho.
O rei Gorgel pode ter morrido sem ter deixado descendentes, mas foi idolatrado por séculos por ser um rei forte e justo, e a Ganimédia tornou-se um renomado reino nos livros de História de todo o Ocidente por ser peculiar sendo o único que já teve dois reis e nenhuma rainha, período pelo qual era o mais próspero de todos daquela época.

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*O nome do reino fictício foi inspirado em Ganimedes, que na mitologia grega era um mortal que, de tão belo, foi raptado pelo próprio Zeus e passou a viver entre os deuses olimpianos.

Contos de Segunda – A Assembleia dos Deuses

Contos de Segunda

Conforme prometido, segue o conto inédito “A Assembleia dos Deuses”:

O ano é 2015. Bem acima do Monte Olimpo, uma montanha com 2917 metros que fica no território da Grécia, está um lugar que nenhum humano consegue ver, um lugar tão lindo e tão exuberante que, se uma mente mortal pudesse vê-lo, o descreveria como sendo o próprio paraíso que muitas religiões pregam.
Neste lugar, que é uma porção de terra suspensa ou uma ilha flutuante, se encontra um imenso jardim, com árvores, flores, animais de adorno, fontes e cascatas, e nesse jardim há um majestoso palácio branco com colunas jônicas. Na imensa porta principal deste palácio, há uma movimentação de pessoas (não propriamente humanas) entrando e saindo; alguns são soldados, vestidos de armaduras de bronze e empunhando escudos e lanças; outros são apenas servos do edifício, vestindo simples togas brancas e calçando sandálias, em sua maioria mulheres. No interior do palácio, dentre os muitos cômodos do lugar, há uma salão com uma enorme mesa circular de mármore claro, e neste momento, ao redor dela, se encontram sentadas alguns executivos notadamente de culturas diferentes, todos bem vestidos. Eis que adentra o recinto um imponente senhor corpulento, de longas madeixas e barbas grisalhas, usando um terno azul e acompanhado por dois bonitos jovens, uma moça e um rapaz, ambos loiros.
– Boa tarde, senhores. – ele diz.
– Boa tarde! – os outros cavalheiros respondem em uníssono.

Este mesmo senhor se senta na cadeira mais próxima da porta, e a moça que veio com ele, deixa algumas pastas na mesa em frente a ele e pergunta:

– Deseja mais alguma coisa, Sr. Zeus?

– Não, Hebe, apenas que as serviçais nos tragam os petiscos e o vinho.

Ela acena com a cabeça, faz uma mesura e sai da sala. Ao lado de Zeus, o rapaz continua de pé, segurando alguns papéis.

Um homem com a cabeça completamente raspada e de pele bronzeada, sentado ao lado direito de Zeus, indaga:

– Então, Zeus, quais são as pautas da reunião de hoje?

– Meu bom Osiris, pensei em começarmos pela questão da Síria. – ele respondeu.

– O Estado Islâmico já recebeu mais um carregamento de nossas armas conforme prometido na semana passada? – indagou um homem de olhos grandes e pele levemente azulada, sentado ao lado esquerdo de Zeus.

– Sim, Vishnu. – respondeu Osiris.

– Os sírios não podem mais abandonar seu país assim. A Europa se tornará um caos. E a própria Síria mergulhará na miséria sem mão de obra. – questionou Vishnu.

– OK, senhores, sabemos que essa questão é complicada. Vamos passar para o próximo assunto. – disse Zeus, enquanto as serviçais, mulheres de diferentes etnias, carregavam comidas e bebidas e serviam os executivos.

– Estive pensando… – começou o homem aparentemente mais experiente na sala, de cabelos e barbas brancas e com uma enorme cicatriz no olho esquerdo – que está na hora de deliberarmos uma catástrofe natural de grandes porporções num país cristão…

– Pode ser o Brasil. – sugeriu Vishnu.

– Ou o México. – disse um senhor de aparência indígena que portava uma pena na cabeça.

– Sim, Tezcatlipoca, para que a fé deles seja abalada e assim, nossas ações tenham uma alta.

Todos aprovaram com um murmúrio.

– Concordamos com você, Odin. Você se encarrega disso. – disse Zeus.

– Por falar em ações – emendou Vishnu – precisamos lidar com a ameaça econômica da China.

– Pode deixar comigo. – respondeu um homem austero, de aparência árabe e terno branco, que estava sentado do lado oposto ao de Zeus.

– Adoro seus métodos, Enlil. – falou Zeus, com um sorriso de canto de boca. – Me surpreenda dessa vez!

Enlil riu baixinho e fechou a pasta que estava à sua frente sobre a mesa.

– Ganimedes, onde estão aqueles gráficos que lhe pedi? – inquirou o Pai dos deuses gregos ao rapaz que estava de pé ao seu lado.

– Aqui, senhor. – e lhe entrega um par de folhas.

– Como está o vinho, senhores? – Zeus indaga, girando os olhos a todos na mesa.

– Está divino! – responde Odin. Todos riem.

Contos de Segunda – A viúva e a sacerdotisa

Contos de Segunda

Tenho duas notícias: uma ruim e uma boa. A ruim é que me esqueci completamente que tinha que escrever um conto hoje, então infelizmente aqui vai outro do finado blog Conte Conosco. A boa é que, em breve, teremos a colaboração de mais dois autores no URUK. Rebeca Schutz e Michel Souza, meus parceiros de Conte Conosco e Blablaísmo, que também escreverão contos aqui nas segundas e, espero, contribuam com outros assuntos noutros dias da semana.
Bom, é isso. O conto de hoje é “A viúva e a sacerdotisa”:

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Teresa sentia muita falta de seu marido falecido. Pensava nele todos os dias, nos primeiros minutos da manhã, logo após se levantar da cama; enquanto fazia o almoço e se sentava na mesa pra comer; quando ia à feira; quando assistia a novela; e quando se ajoelhava na beira da cama na hora de rezar.
Karina era uma famosa vidente da cidade grande e há dias viam-se cartazes colados pelo vilarejo anunciando sua chegada. E hoje ela finalmente chegou, com sua tenda púrpura, adornada por cristais e espelhos. Já se formava uma fila que se estendia por meio quarteirão de pessoas querendo consultá-la. Teresa ouviu falar que ela lia o passado e o futuro, e que sabia sortilégios poderosos para trazer diversos tipos de benefícios, todos com preços altíssimos. Depois de duas horas na fila, enfrentando sol e o furor das outras pessoas que contavam causos e especulavam o que Karina teria a lhes dizer, chegou a vez da viúva Teresa ser atendida. Dentro da tenda, ela viu a vidente cercada de diversos artefatos místicos e esotéricos, e não conhecia metade daquilo. O ar ali era denso e opaco, devido ao insenso. Uma vez sentada na mesinha circular que ficava no fundo da tenda, Teresa ouviu a voz doce de Karina:
– É a sua primeira vez, querida?
– Sim. – respondeu, encabulada.
– E o que você procura?
– Quero saber como está seu marido.
– Por que? Vocês se separaram?
Teresa se sentiu ultrajada e, de olhos arregalados, cara amarrada e tom de voz nada amistoso, respondeu: Claro que não! Ele morreu há três anos, na guerra.
– Quem lhe contou isso? O Oswaldo? Oswaldo Gomes da Silva?
Teresa mudou a expressão, agora espantada.
– Ele está bem vivo, querida. Vive numa cidadezinha no interior de Minas, está casado de novo e tem uma filhinha linda.
A viúva ergue-se da cadeira, pôs as mãos sobre a mesinha e bravejou:
– Isso é impossível! Uma mentira! Meu marido jamais faria uma coisa dessas comigo! E como você sabe o nome dele?
– Eu sou a vidente aqui, esqueceu?
Teresa deu meia volta e saiu correndo dali, limpando as lágrimas do rosto.
– Ei! Volte aqui! Você me deve R$ 50!
Na saída da tenda, a viúva foi pega por dois brutamontes que trabalhavam pra vidente e, por consequência, levada à delegacia. O delegado não poderia deixar que a reputação do vilarejo fosse manchado desse jeito perante à uma atração nacional que era a vidente Karina. E Teresa foi presa, pois estava desolada e não quis pagar para aquela mulher que lhe trouxe tal infortúnio.
E Oswaldo? Estava vivo mesmo, e casado com Selma, uma mulher que se apaixonou pelo cabra casado durante a guerra e, como ele era fiel, recorreu a um dos sortilégios de Karina para fazê-lo amá-la incondicionalmente. E foi Selma quem mandou um mensageiro pra casa de Teresa três anos atrás para avisá-la da “morte” do esposo. Selma era rica e costumava ter tudo o que queria, e quando não tinha por mérito próprio, comprava.
Um dia, Karina voltou e reencontrou Selma, e disse a ela que conheceu Teresa e todo aquele drama.
– Bem feito praquela vaca! Ninguém mandou ela ser sonsa e perder o homem dela pra mim.
– Mas ela não perdeu, foi roubada.
– Como ousa me difamar, sua bruxa? Eu paguei – e bem – pelos seus serviços ou não? Quer mais dinheiro? É isso, sua golpista?
– Não, eu só quero mostrar a você que tudo que vai nessa vida, volta. – disse Karina, e foi embora.
Naquela mesma noite Selma morreu engasgada com uma casca de pão. Oswaldo acordou do feitiço e, ensandecido, fugiu da cidade. A filhinha dos dois foi abandonada e levada para um orfanato.
Ao chegar no seu lugar de origem, bateu na porta da casa de Teresa e não foi atendido. Uma vizinha nova, que não chegou a conhecer o homem, disse-lhe:
– A Teresa não mora mais aí, moço. Ela foi embora do vilarejo com o novo namorado.
– N… Novo namorado!? – ele perguntou, incrédulo. E, olhando pro chão, tropeçando, lentamente, vagou incerto até à praça.
Karina estava certa: nessa vida, o que vai, volta.

Contos de Segunda – Peter Pan está morto

Contos de Segunda

Inicia hoje no URUK o “Contos de Segunda”, onde toda segunda-feira teremos um conto, inédito ou retirado do acervo do finado blog Conte Conosco (que contava com as minhas contribuições e as de meus colegas).
Queria ter publicado um inédito hoje, mas o que estou escrevendo demandou muitas pesquisas e não consegui concluir a tempo, portanto vou publicá-lo apenas na semana que vem. Prometo que os contos serão intercalados – um inédito, um antigo.
Hoje, ficamos com “Peter Pan está morto”:

peter pan está morto

Wendy era uma bela garota londrina, loira, cabelos compridos até à altura das omoplatas, e tinha um corpo desenvolvido demais para sua idade. Nos últimos três meses vinha tendo sonhos recorrentes e muito estranhos, com um garoto, aparentando ter uns quinze anos, de cabelos castanhos claros e olhos azuis-acinzentados, de olhar misterioso e sedutor, que dizia se chamar Peter Pan. Naquela noite estava imersa em outro pesadelo, onde corria numa mata escura de mãos dadas com Peter, e eles fugiam de um bando de homens que estavam armados e atirando na direção deles. Correram até se encontrarem à beira de um precipício. Peter olhou para ela, com um olhar maroto, e pediu que ela confiasse nele, e pulou, levando-a consigo. Wendy acorda suada e olhou ao redor, seu quarto estava escuro tinha apenas a parca luminosidade da lua crescente. Ela suspirou e passou as costas da mão na testa para secar um pouco do suor quando se espantou ao ouvir uma voz masculina e familiar vindo da direção da poltrona:

– Me desculpe por te fazer passar por esses pesadelos.

– Quem é você? – ela acendeu o abajur do seu criado-mudo, enfim vislumbrando a figura de Peter esparramada na poltrona.

– Então você é real? Ou isso ainda é um sonho?

Ele se levanta e caminha até à cama, se agacha e segura o pulso dela.

– Um sonho faria isso?

Ela rapidamente se livra da mão dele e diz:

– O que você quer?

– Preciso que você me acompanhe até à Terra do Nunca. Só uma garota deste mundo pode ajudar a mim e aos meus amigos a salvar aquele lugar.

– Você quer que eu saia no meio da madrugada da minha cama quentinha pra acompanhar um garoto estranho em um lugar “encantando” e se meter em alguma grande “aventura”? Nem sonhando!

– Wendy, sério! Você precisa confiar em mim.

– Assim como agora há pouco no sonho, quando você pulou comigo no precipício?

– Ai, caramba! Você já se esqueceu do pó mágico que me permite voar?

Wendy fez cara de quem deve ter dormido e perdido algum episódio.

– Vamos! – Peter pegou pela mão, foi à direção da janela, que estava aberta, e saltou, levando a garota aos ares.

– Aaaaaaah! – ela gritou.

– Shh, Wendy! Quer que sua família ache que você está sendo sequestrada e chamem a polícia?

– Mas não é exatamente isso que você está fazendo??

Eles voaram por muito tempo, mesmo sob os protestos de Wendy. Quando ela deu por si já estava sobrevoando uma selva tropical, diferente de qualquer coisa que poderia ver na Inglaterra, sem contar a areia e o mar, que emolduravam o horizonte. Pousaram numa clareira, iluminada apenas pela luz da lua cheia. Ela podia ver a luz de alguns archotes que estavam no interior de uma trilha, ali perto, e ficou menos tensa ao perceber que não estava num lugar aleatório no meio de uma selva desconhecida.

– Onde estamos? – Wendy indagou.

– Em minha casa. – ele respondeu, e na sequência deu um assobio bem alto, usando os dedos entre os lábios.

Alguns garotos, de várias idades, etnias e alturas, emergiram das matas trevosas, e Wendy tomou um susto, levando a mão ao coração.

– Quem são eles?

– Meus amigos, os Garotos Perdidos.

Um deles, loiro e gorducho, arreganhou a boca e mostrou seus caninos salientes, e seus olhos cintilaram na cor vermelha, e chegou bem perto de Wendy, que gritou e se escondeu atrás de Peter.

– Epa! Vai com calma, Bicudo! Ela não é sua comida! – falou Peter, afastando-o com a mão.

– Peter, ele é um… – e antes que ela pudesse completar a pergunta, viu todos os outros garotos com os olhos brilhando, alguns com os grandes caninos para fora.

– Wendy, todos nós somos vampiros. – respondeu Peter, sorrindo e com os olhos também transformados, e com os dentes salientes.

Wendy estava apavorada, afastou-se de costas de Peter e com as mãos sobre a boca. Um dos outros garotos disse:

– Peter, ela está fedendo a medo.

Cabelo, ~o mestre do óbvio~. – debochou Peter. – Wendy, você precisa manter a calma. Sua ajuda é vital para o sucesso de nossa missão. E além do mais, você não pode se deixar levar pelas histórias que ouviu sobre a nossa raça.

Ela concordou apenas balançando a cabeça. Peter olhou para o afrodescendente e perguntou:

Deleve, onde está a pedra?

– Na minha tenda, senhor!

– Traga-a para cá e vamos logo ao templo! – ordenou Peter.

O garoto foi e voltou rapidamente, trazendo consigo uma pedra lapidada, do tamanho de um pêssego e da cor do âmbar, e entregou ao seu líder, que guardou num bolso, segurou no braço de Wendy, e alçou voo, acompanhado dos Garotos Perdidos.

Voaram por dez minutos até avistarem uma construção alta no meio da selva, com pilares como as dos templos gregos, e plantas trepadeiras cobrindo parte da estrutura. Pousaram em frente à grande porta do prédio e entraram receosos. Peter levava Wendy e metade dos garotos iam na frente enquanto a outra cuidava da retaguarda.

– Eu não estou enxergando nada. – reclamou Wendy.

– Cabelo, uma tocha! – ordenou Peter, que foi prontamente obedecido.

O lugar se iluminou, revelando uma arquitetura bem elaborada, ainda que em ruínas, e à frente deles, um altar com uma estátua feminina e correntes. Nisso, Bicudo gira em 180° e rosna, e todos os outros vampiros se viram também. Um bando de homens barbudos, segurando armas e archotes, surgem na entrada, e o da frente deles, com um gancho no lugar da mão, diz:

– Pan, meu inocente Pan. Não achava mesmo que nós não tentaríamos impedir você de fazer essa loucura, não é?

– Capitão Gancho! – ele exclamou.

Capitão Stewart, ele te chamou de “Gancho” de novo. – alertou um velho gorducho, ao lado do líder maneta.

– Eu ouvi, Smith! Eu não sou surdo. Essa foi a ofensa final, Pan! – e disparou sua pistola em direção a eles.

Peter moveu-se mais rápido que o olho humano e protegeu Wendy do projétil, sendo alvejado pelas costas. Wendy gritou com o susto e só viu de relance o sangue do jovem vampiro caindo em fartas gotas no chão.

– Peter, você está bem? – ela perguntou, sem obter resposta.

Os Garotos Perdidos voaram em direção aos homens do Capitão e houve vários disparos e gritos (dos humanos), e Peter, aparentando estar bem mesmo tendo sido alvejado, moveu-se em direção à parede esquerda e baixou uma alavanca, que acionou um dispositivo que fez com que o chão que estava entre o altar e a entrada do templo se abrisse, deslizando. Enquanto seus comparsas vampiros lutavam com os capangas de Stewart, ele encaixou a joia num buraco do tamanho da pedra feita no peito da estátua, fazendo com que parte do teto se abrisse. Wendy olhou maravilhada para o céu, mas foi pega de surpresa por Peter, que a colocou aos pés da estátua, acorrentando-a.

– Peter, o que significa isso?

– Desculpe, Wendy, mas eu menti pra você. O seu sangue será um sacrifício para despertar Nosferatu, o rei de nossa raça.

Wendy se sentiu profundamente traída e nada respondeu, de tão perplexa. Peter se agachou para pegar um punhal do cano de sua bota, e quando levantou-se viu que o Capitão Stewart estava de pé ao lado da garota, apontando sua pistola na cabeça dela.

– Como você chegou aqui? – olhando para a figura esfarrapada, mas ainda imponente de seu rival humano.

– Me entregue a joia ou eu estouro os miolos dela!

– Você sabe que eu posso arrancar sua cabeça antes de você puxar o gatilho! – retrucou Peter.

– Experimente. – desafiou Stewart.

Um disparo absurdamente alto rugiu pelo templo, e Peter caiu de joelhos no chão, com um rombo no tórax. Stewart riu freneticamente e disse:

– Excelente, Robert! – o Capitão parabenizou o autor do disparo, que estava de pé, na entrada do templo, com uma espingarda na mão. – Ainda bem que a garrucha especial feita para os chupadores de sangue deu certo!

Peter se refez e voou em direção a Stewart, arrancando sua cabeça, enquanto dois dos Garotos Perdidos estripavam Robert.

– Está para ser feita uma arma que possa acabar com Peter Pan! – vangloriou-se o líder dos vampiros, encurvado e com a mão no peito, que começava a se regenerar.

– Agora é a sua vez, mocinha! – disse à Wendy, cravando o punhal em seu peito e apagando a chama da vida da garota.

Houve um brilho intenso vindo do fundo do poço do chão aberto do templo, e o céu encobriu-se de nuvens púrpuras e trovejantes, e Peter Pan ria enquanto liberava na Terra um dos piores pesadelos de todos os tempos…