Chadwick Boseman e uma citação polêmica pouco comentada

Por Carol Buri

Até quando “separar o profissional do pessoal” é válido em Hollywood, ou até mesmo em nossas vidas? O astro de Pantera Negra (Marvel Studios), Chadwick Boseman se envolveu há algum tempo, mesmo que indiretamente, em uma das inúmeras polêmicas dos casos de assédio contra mulheres por artistas hollywoodianos. O caso inicialmente se deu devido a comentários que o ator de 40 anos fez relacionados a uma acusação de estupro envolvendo o diretor norte-americano Nate Parker, que ganhou um considerável destaque em 2016 com o lançamento de O Nascimento de uma Nação (2016), filme ao qual Chadwick estava envolvido e panfletando por conta da trama do longa, um filme que conta a história de Ned Turner, um homem escravizado que foi líder numa revolta de escravos nos EUA em 1831. Parker foi acusado de estupro em 1999 e inocentado, e a suposta vítima cometeu suicídio. Durante a press tour do filme, as acusações começaram a entrar em evidência e o filme perdeu espaço na mídia sendo eclipsado pelas acusações, e Chadwick falou sobre essa questão afirmando que “Depende de quão bom o cineasta é. Se o filme é incrível, então eles têm a capacidade de suspender nossa crença. Isso faz parte do teatro e o que é contar histórias”. É claro que o filme tinha uma grande importância social, mas basicamente pedir de forma discreta para deixarem de falar das acusações como se o caso não tivesse importância é uma atitude muito decepcionante, principalmente vinda de um ator como Chadwick Boseman que luta por minorias e costuma fazer discurso abordando questões sociais em Hollywood. Enquanto houver pessoas separando o pessoal do profissional, sendo seletivas sobre qual acusação devemos falar e qual não podemos, o silenciamento existirá dando suporte a artistas hollywoodianos que são acusados continuarem seguindo com suas carreiras, sendo enaltecidos pela academia cinematográfica, e ganhando prêmios, como nos casos de Casey Affleck e Gary Oldman. Em Hollywood são dois pesos e duas medidas?

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Os filmes de super-heróis estão arruinando o cinema?

Circulando desde o dia 29/12 a notícia em que Jodie Foster, numa entrevista à revista Radio Times, disse que os filmes de super-heróis estão arruinando o cinema, mas somente hoje o assunto tomou conta das discussões nas redes sociais. Na entrevista, Jodie afirmou:

“Ir ao cinema atualmente se tornou uma experiência como ir a um parque de diversões. Estúdios produzem conteúdos ruins para apelar para as massas e investidores, e é como extrair petróleo. Você ganha muito dinheiro agora, mas você destrói a terra.
Isto está arruinando com o hábito de consumo de filmes do público americano e, no fim das contas, do resto do mundo. Eu não quero fazer um filme de US$ 200 milhões sobre super-heróis.”

Bom, ela não está errada, mas há um exagero aí.

Em algumas das discussões, li que, em algumas cidades do Brasil, onde há poucas salas de cinema, e quando algum filme de super-heróis está em cartaz, a maioria dessas salas exibe este tipo de blockbuster em detrimento de outros tipos de filmes, como drama, por exemplo, tornando escassas as opções para quem não gosta de filmes de heróis.
Bom, até concordo que, se eu não curtisse esse tipo de filme, ficaria chateado com a falta de opções, mas temos que ver que isso acontece nos cinemas do Brasil e do mundo DESDE SEMPRE, quando filmes independentes ou até os minimamente relevantes não são exibidos no lugar de blockbusters. Isso é normal e sempre vai acontecer, pois pensa comigo: se você é dono de uma franquia de cinemas e tem duas salas de exibição, e tem a opção de exibir um filme que vai render uma bilheteria 100, e outro – um blockbuster – que com certeza vai render uma bilheteria 500, qual você exibiria? Vivemos no capitalismo e, é óbvio que, se você não for um tonto, vai querer exibir o que render mais dinheiro pra você, não é mesmo? Então a culpa não é exatamente dos filmes de heróis, ou dos estúdios que os produzem, e sim porque há DEMANDA para esse tipo de filme. Não é como se o filme que não entrou em cartaz na sua cidade não pudesse ser visto em lugar nenhum, né. A internet está aí pra isso.

Queria deixar mais duas ressalvas quanto à polêmica:
1) Alguém chegou a dizer hoje algo que achei interessante, que as artes em geral sempre quando sofrem mudanças, as pessoas acabam achando que o novo vai acabar com toda a arte em si. Imagina no renascentismo o que as pessoas diziam “Nossa, esses artistas de hoje estão arruinando a pintura/a arquitetura etc”, ou até mesmo o fenômeno parecido com os meios de comunicação. Lembra quando disseram que a TV iria acabar com o cinema ou que o cinema iria acabar com o teatro? Todos eles estão aí até hoje – claro, com suas devidas forças – mas há público para cada um deles.
2) Também li que os filmes de super-heróis não estão exatamente “”arruinando”” (e coloco em duplas aspas porque acho exagerado) o cinema, e sim ditando novas regras para os blockbusters.

Enfim, não acho que os filmes dos estúdios Warner, Fox, Sony e Marvel Studios (inclusive 3 destes produzem outros gêneros além dos de super-heróis, não vivem apenas disso) irão arruinar a indústria cinematográfica em si. Creio que há espaço para todos os gêneros. Se cineastas e estúdios acham que estamos precisando de mais filmes de ação, aventura, comédia, terror, drama ou suspense para compensar a falta deles em comparação com os de heróis, que se façam bons filmes, com bons histórias, efeitos e atuações, para que eles façam boas bilheterias e mostrem que nem só de histórias baseadas em quadrinhos se vive Hollywood, se bem que eu já acho que não, há bons filmes de vários gêneros por aí para agradar todos os gostos, é só procurar melhor que você acha.